o pé de laranja lima é mais repositor de ternura do que vitamina C.
Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
Domingo, 28 de Junho de 2009
JÔ OLIVEIRA
Ele era daqueles velhos que a gente pensava que nunca ia sentir falta quando batesse com as caçuletas. Ralhava porque a gente guardava os bigatos de estimação na horta e gastávamos a água da bica lavando os porcos que estavam da cor do terrerão.
Todo dia ele falava:
- Espera chover pra lavar a roupa, muié. Espera chover pra tomar banho, menina. Que mania é essa de tanto beber água? – dizia ele.
Até quando ele tomava o remédio da pressão, fazia cuspe na boca pra não gastar água tendo que engolir o comprimidinho, que ele cortava em quatro partes pra durar mais. O povo lá do Imbé chamava ele de muquirana, nem sei o que é isso.
Um dia ele ficou com as vistas fracas, porque todo dia ele esquecia e relava a cabeça bem no pé de jabuticaba que tinha piolho de galinha, quando ia entrar na casa.
Daí a Candinha falava:
- Ahhhhh, o vô vai botar ovo na cabeça. Vô, cria um pintinho pra mim debaixo do seu chapéu?
E ele sempre no seu boquejar de velho que tá bravo:
- @#$%*&%$#@ - resmungava.
Um dia meu irmão fugiu de casa e minha mãe o encontrou almoçando na casa do velho. Ele tinha mandado fazer polenta com alface. Minha mãe falava que era porque ele não queria gastar o frango, mas eu achava mesmo que ele tinha medo que os frangos acabassem e ele tivesse que fazer ninho em cima do chapéu.
Um dia, dona Rosa acordou faceira como de costume e não ouviu ele boquejar. A história que a gente sabe é que Deus lá de cima falou que se ele morresse aquele dia não ia precisar pagar a viagem e nem o aluguel da casa celestial. Foi por isso que ele foi embora sem dar tchau.
Domingo, 10 de Maio de 2009
PNEUMOTÓRAX
Os sapatos se encontram por debaixo da mesa, num contexto previsível de legenda rodrigueana. Os dois estão com pés de tango e vontade de o último deles, em Paris ou ali atrás daquela mobília que destoa do resto dos objetos do salão e aos olhos do muchacho que agora toca aquela milonga de Piazzola com Yo Yo Ma.
Eles nem dançam agora. Ela quer sair dali antes que aquele guapo chegue às últimas notas, preferia aquele tango pela metade. Ela fugia a todas as regras civis presumidas para aquela dança que ele a ensinara todas as manhãs.
- Eram os pés mais provocantes que eu havia visto, pensava ele quase dizendo em voz alta.
- Você gosta do tango que está tocando?
- Muito.
- Eu não quero ficar aqui até o final desta música.
- Vou completar seu Campari.
- Não, já chega. Há algo de errado com o meu colo?
- Longe disso. Sua face esta tão suave ...
- Está um pouco quente aqui dentro, se não fosse este tango...
- Repare como as pessoas estão felizes.
- Olhe para aquele casal. Quantos anos você acha que eles têm?
- Parece que já os vi antes. Uns 30.
- Ela parece ter menos. Veja suas mãos como são delicadas.
- Sim. Ele deve amá-la e talvez não seja recíproco.
- Talvez ele a peça em casamento esta noite.
- Deve ter muitos pretendentes.
- Deve. Ela parece infeliz e também acho que não sabe dançar.
- Você percebeu que eles também nos olham atentos?
- Será que algum deles nos paquera?
(Seguro sua mão com calma, beijo sua boca da forma mais calma e provocante possível. Eles ficaram sem graça)
- Ela se levantou, deve ir buscar uma soda. Ela é estranha. Você acha ela bonita?
- Bonita e estranha. Mas uma beleza simples, porém inquieta.
- Eu não gosto de beleza como a dela, sabia?
- Note que ele fica perturbado quando ela sai. Talvez por medo ou insegurança.
- Ele é um bom rapaz, tem jeito de gostar de Fernando Sabino.
- Ele parece muito correto, veja seus cabelos alinhados.
- Quando eu me referi a beleza, quis dizer que a dela parece eterna. É uma beleza que não sai do lugar, não oscila.
(Te abraço um pouco mais forte e noto que seu ombro esquerdo esta gelado. Massageio com pressão)
- Deve ser o vento que entra pela porta.
- Eu te amo sabia?
- Você percebeu que está falando isso pela primeira vez?
- Guardei esta frase por tempos, na ânsia do melhor momento.
- Justo agora que ele toca aquela música que é triste.
- Tremi por dentro em dizê-la.
- Não trema, penso que te amo também.
- Sinta a música.
- Vamos dançar?
- Desejo ir embora depois dessa...
(Minha boca a toca paciente...)
- Você parece não estar a vontade dançando comigo.
- Não noto ninguém a nossa volta, o tempo quebrou-se. Há somente eu e você e os músicos lá em cima do palco.
- Tenho um pouco de medo de viver o amor.
- Acho que tenho medo de perde-lo.
- Por que não nos encontramos antes?
- Porque tínhamos que nos encontrar neste bar velho de esquina. Te contei que quando criança quis construir um bar na esquina da minha casa para vender Prestígio e Coca-Cola, porque o homem por quem me apaixonara minutos antes bebia num boteco de rodoviária com essas arquitetura?
- Não desvie. Essa música, você, o ambiente, as rosas lá na entrada. Tudo é tão fascinante.
- Por que será que as pessoas que estão lá no balcão nos encaram?
- Talvez seja nossa imagem de um casal apaixonado. Nossos beijos são constantes, as pessoas notam e as senhoras não gostam.
- Promete ir embora antes desta canção terminar? Não gosto de ponto final nestas melodias.
- Seu desejo talvez seja ficar.
- Melhor não, não hoje.
- Posso acompanhá-la até sua casa?
- Estou confusa e um pouco zonza. Posso pegar um táxi e ir sozinha?
(Agradeço ao gentil garçom)
- Já ia pedir pra agradecê-lo.
- Eu te levo, por favor.
- Ouça: preciso reconstruir tudo o que nos ocorreu esta noite. Quero fazer isso enquanto atravesso esta cidade que sempre está sozinha a essa hora da madrugada.
- Me senti um pouco estranho em devotar meu amor. Já te pertenço. Mesmo que ainda duvides. - Hoje quero mostrar a ela que tenho um amor...Até certo dia, doce rapaz.
- Seu encanto me fascina, sempre e sempre.
- Perdoe se agora te desaponto. O táxi já vem.
- Lutarei por tê-la. Não como amante, mas como uma estrela que se admira nas noites baixas e se guarda com as duas mãos.
- Sua garota já está longe, sussurra aquele senhor de paletó amassado.
- Um pedaço de mim se foi. Suspiro como se estivesse para morrer, mas me sinto leve. Jamais amarei pela metade. Deitado, abraçando o travesseiro repouso feliz.
Terça-feira, 21 de Abril de 2009
VOCÊ DORME AQUI DO LADO COM FONES DE OUVIDO
E você vai vir me buscar até a esquina porque eu não quero andar meio metro sozinha e vai xingar porque eu vou parar para erguer a alça da sandália e depois vai rir alto porque você arrotou e eu fiquei em fúria e depois você vai querer me levar de guarda-chuva até o bar da esquina com o céu estrelado só para as pessoas ficarem olhando e pensando assim: “Por que eles estão de guarda-chuva?”. Porque daí se as suas pernas um dia ficarem fraquinhas de tanto correr para apertar campainha e seu dedão ficar no asfalto porque chutou o sapato na casa de qualquer mulher rica voltando daquela boate, eu empurro a cadeira de rodas, o carrinho de rolimã ou a bicicleta do posto em Bauru para te levar comigo até ali. Vamos. Vamos ali, comigo? Me empresta a sua escova de dentes? Vamos lá na casa da árvore vê que sabor tem de Gudan Garang? E depois o dia em que você não puder ir até ali você diz sempre: “Eu te dou um chocolate depois” e daí eu falo: “Então tá”. E daí no dia seguinte você não trouxe o chocolate e falou: “Ah”. E porque também a gente estava esperando a chuva passar quando o plantão anunciou que aquele jornalista dono do meio de produção já era e sabe que eu sempre vou ter que te contar um bocado de coisas e esperar caindo no chão, rolando, dançando e rodando você dizer do computador da Prefeitura: “Todos os literatos, artistas, escritores e comunistas...” e eu falo: “Vai se ferrar” e você coloca mil risadas para eu saber que você está rindo bastante, mas daí quando eu começo a gritar de rir eu ligo aí para você saber que eu estou gargalhando alto e porque então, nesse caso, você não precisa disfarçar que é um geólogo, um médico em apuros para gravar suas teses no convívio de tantos burocratas-aspones-da-prefeitura, porque ai, porque eu quero nunca ter bolhas nos pés para sempre que vê-lo poder correr em disparada!!!!!!!!
Sábado, 11 de Abril de 2009
Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
SUPER PLA
Depois de fugir de pinguins gigantes e aveludados, que o companheiro do lado pensou ser uma cegonha, e membros da ku klux klan pelo telhado, eu liguei pra você. você apareceu na minha frente pra atender a ligação (adoro sonho) e disse assim: nunca mais ligue, nunca mais não sei o quê e não sei o que lá e mais uma sequência de chicotadas no meio fio. depois passou atrás de mim, com o dedo em passeio pelas minhas costas, derretendo margarinaxpão.
Segunda-feira, 23 de Março de 2009
SÓ, SOMENTE SÓ
eu quero a paz de unhas descascadas, pentelhos com vida, calcinha cor de coador de café e um banho um dia e meio depois, por alguns dias. quero e é só.
